sexta-feira, 16 de junho de 2017

CAPÍTULO III / AO PÉ DA CERCA



A primeira coisa que Estevão pôde descobrir é que a vizinha era moça. Via-lhe o perfil, em cada aberta que deixavam as árvores, um perfil correto e puro, como de escultura antiga. Via-lhe a face cor de leite, sobre a qual se destacava a cor escura dos cabelos, não penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da cabeça, com aquele desleixo matinal que faz mais belas as mulheres belas. O roupão, — de musselina branca, — finamente bordado, não deixava ver toda a graça do talhe, que devia ser e era elegante, dessa elegância que nasce com a criatura ou se apura com a educação, sem nada pedir, ou pedindo pouco à tesoura da costureira. Todo o colo ia coberto até o pescoço, onde o roupão era preso por um pequeno broche de safira. Um botão, do mesmo mineral, fechava em cada pulso as mangas estreitas e lisas, que rematavam em folhos de renda.
Estevão, da distância e na posição em que se achava, não podia ver todas estas minúcias que aqui lhes aponto, em desempenho deste meu dever de contador de histórias. O que ele viu, além do perfil, dos cabelos, e da tez branca, foi a estatura da moça, que era alta, talvez um pouco menos do que parecia com o vestido roçagante que levava. Pôde ver-lhe também um livrinho, aberto nas mãos, sobre o qual pousava os olhos, levantando-os de espaço a espaço, quando lhe era mister voltar a folha, e deixando-os cair outra vez para embeber-se na leitura.
Ia assim andando, sem cuidar que a visse alguém, tão serena e grave, como se atravessara um salão. Estevão, que não tirava os olhos dela, mentalmente pedia ao Céu a fortuna de a ter mais próxima, e ansiava por vê-la chegar à rua que lhe ficava diante. Contudo, era difícil que lhe parecesse mais formosa do que era, vista assim de perfil, a escapar por entre as árvores. O jovem bacharel, para não perder o sestro dos primeiros tempos, avocava todas as suas reminiscências literárias; a desconhecida foi sucessivamente comparada a um serafim de Klopstock, a uma fada de Shakespeare, a tudo quanto na memória dele havia mais aéreo, transparente, ideal.
Enquanto ele trabalhava o espírito nestas comparações poéticas, não descabidas, se quiserem, em tal lugar, e ao pé de tão graciosa criatura, ela seguia lentamente e chegara à encruzilhada das duas grandes ruas da chácara. Estevão esperava que voltasse à direita, isto é, que viesse para o lado dele, mas sobretudo receava que seguisse pela mesma rua adiante e se perdesse no fundo da chácara. A moça escolheu um meio-termo, voltou à esquerda, dando as costas ao seu curioso admirador e continuando no mesmo passo vagaroso e regular.
A chácara não era em demasia grande; e por mais lento que fosse o passo da madrugadora, não gastaria ela imenso tempo em percorrer até o fim aquela porção da rua em que entrara. Mas ali, ao pé daquele coração juvenil e impaciente, cada minuto parecia, não direi um século, — seria abusar dos direitos do estilo, — mas uma hora, uma hora lhe parecia, com certeza.
A moça entretanto, chegando ao fim, parou alguns instantes, pousou a mão nas costas de um banco rústico que ali havia e enfrentava com outro, colocado na extremidade oposta. A outra mão descaíra-lhe, e os olhos também, o que magoou o seu curioso observador. Seriam saudades de alguém? Estevão sentiu uma coisa, a que chamarei ciúme antecipado, mas que na realidade eram invejas da alheia fortuna. A inveja é um sentimento mau; mas nele, que nascera para amar, e que, além disso, tinha em si o contraste do nascimento com o instinto, um berço obscuro e umas aspirações à vida elegante, — nele a inveja era quase um sentimento desculpável.
A moça voltou e veio pela rua adiante. Enfim, disse consigo Estevão, vou contemplá-la de mais perto. Ao mesmo tempo, receoso de que, descobrindo ali um estranho, guiasse os passos para casa, Estevão afastou-se do lugar em que ficara, resoluto a aparecer, quando ela estivesse próxima à cerca do jardim. A moça vinha andando com o livro fechado, e os olhos ora no chão, ora nas andorinhas e camaxilras que esvoaçavam na chácara. Se trazia saudades, não se lhe podiam ler no rosto, que era quieto e pensativo, sim, mas sem a menor sombra de pena ou de tristeza.
Estevão do lugar onde estava podia examinar-lhe as feições, sem ser visto por ela; mas foi justamente do que não cuidou, desde que lhas pôde distinguir. Valia a pena, entretanto, contemplar aqueles grandes olhos castanhos, meio velados pelas longas, finas e bastas pestanas, não maviosos nem quebrados, como ele os cuidara ver, mas de uma beleza severa, casta e fria. Valia a pena admirar como eles comunicavam a todo o rosto e a toda a figura um ar de majestade tranqüila e senhora de si. Não era ela uma dessas belezas que, ao mesmo tempo que subjugam o coração, acendem os sentidos; falava à inteligência primeiro do que ao coração, tanto a arte parecia haver colaborado com a natureza naquela criatura, meia estátua e meia mulher.
Tudo isto podia ver e considerar o nosso bacharel. A verdade, porém, é que a nenhuma destas coisas atendeu. Desde que distinguira as feições da moça, ficou como tomado de assombro, com os olhos parados, a boca entreaberta, fugindo-lhe a vida e o sangue todo para o coração.
A moça chegara à cerca; esteve de pé algum tempo, olhou em derredor e por fim sentou-se no banco que ali havia, dando as costas para o jardim de Luís Alves. Abriu novamente o livro, e continuou a leitura do ponto em que a deixara tão só consigo, tão embebida no livro que tinha diante, que não a despertou o rumor, aliás sumido, dos passos de Estevão nas folhas secas do chão. Teria percorrido meia página, quando Estevão, reclinando-se sobre a cerca, e procurando abafar a voz para que só chegasse aos ouvidos dela, proferiu este simples nome:
— Guiomar!
A moça soltou um grito de surpresa e de susto, e voltou-se sobressaltada para o lado donde partira a voz. Ao mesmo tempo levantara-se. A impressão que lhe produzira, e não sei se também algum ar de cólera que lhe notasse no rosto; e além de tudo, o remorso de não haver sufocado aquele grito de seu coração, fez com que Estevão, quase no mesmo instante, murmurasse em tom de súplica:
— Perdoe-me; foi uma centelha do passado que estava debaixo da cinza: apagou-se de todo.
Guiomar, — sabemos agora que era este o seu nome, — olhou séria e quieta para
o seu mal-aventurado interruptor, dois longos e mortais minutos. Estevão, confuso e vexado, tinha os olhos em terra; o coração palpitava-lhe com força, como a despedir-se da vida. A situação era em demasia aflitiva e embaraçosa para que se pudesse prolongar mais. Estevão ia cortejá-la e despedir-se; mas a moça, com um sorriso de mais piedade que afeto, murmurou:
— Está perdoado.
Caminhou para a cerca e estendeu-lhe a mão, que ele apertou, — apertou não é bem dito, — em que ele tocou apenas, o mais cerimoniosamente que podia e devia naquela situação.
E depois ficaram a olhar um para o outro, sem se atreverem a dizer nada, nem a sair dali, a verem ambos o espectro do passado, aquele tão amargo passado para um deles. Guiomar foi a primeira que rompeu o silêncio, fazendo a Estevão uma pergunta natural, como não podia deixar de ser naquelas circunstâncias mas ainda assim, ou por isso mesmo, a mais acerba que ele podia ouvir:
— Há dois anos que nos não vemos, creio eu?
— Há dois anos, murmurou Estevão abafando um suspiro.
— Já está formado, não? Lembra-me ter lido o seu nome...
— Estou formado. Sabe que era o desejo maior de minha tia...
— Não a vejo há muito tempo, interrompeu Guiomar; eu saí do colégio, logo depois que o senhor seguiu para São Paulo. Saí a convite da baronesa, minha madrinha, que lá foi buscar-me um dia, alegando que eu já não tinha que aprender, e que me não convinha ensinar.
— Decerto, assentiu Estevão. — Minha tia é que não deixou nem podia deixar de ensinar; acabou no ofício.
— Acabou?
— Morreu.
— Ah!
— Morreu há cerca de um ano.
— Era uma boa criatura, continuou Guiomar, depois de alguns instantes de silêncio, muito carinhosa e muito prendada. Devo-lhe o que aprendi... Está admirando esta flor?
Estevão, apanhado em flagrante delito de admiração, não da flor mas da mão que a sustinha, — uma deliciosa mão, que devia ser por força a que se perdeu da Vênus de Milo, Estevão balbuciou:
— Com efeito, é linda!
— Há muita flor bonita aqui na chácara. A baronesa tem imenso gosto a estas coisas, e o nosso jardineiro é homem que sabe do seu ofício.
Aquele natural acanhamento da primeira ocasião foi desaparecendo aos poucos, e a conversa veio a ser, não tão familiar, como outrora, mas em todo o caso menos fria do que a princípio estivera. Havia, contudo, uma diferença entre os dois: ele, sem embargo do desembaraço, sentia-se abalado e comovido; ela, porém, vencido o sobressalto do princípio, mostrava-se tranqüila e fria, sempre polida e grave, risonha às vezes, mas de um risonho à flor do rosto, que não lhe alterava a serenidade e compostura.
O sítio e a hora eram mais próprios de um idílio que de uma fria e descolorida prática. Um céu claro e límpido, um ar puro, o sol a coar por entre as folhas uma luz ainda frouxa e tépida, a vegetação em derredor, todo aquele reviver das coisas parecia estar pedindo uma igual aurora nas almas. Estas é que deviam falar ali a sua língua delas, amorosa e cândida, em vez da outra, cortês, elegante e rígida, que a nenhum deles desprazia, decerto, mas que era muito menos voluntária nos lábios de Estevão.
Guiomar falava com certa graça, um pouco hirta e pausada, sem viveza, nem calor.
Estevão, que a maior parte do tempo ficara a ouvi-la, observava entre si que as maneiras da moça não lhe eram desnaturais, ainda que podiam ser calculadas naquela situação. A Guiomar que ele conhecera e amara era o embrião da Guiomar de hoje, o esboço do painel agora perfeito; faltava-lhe outrora o colorido, mas já se lhe viam as linhas do desenho.
A conversa durou cerca de três quartos de hora, uma migalha de tempo para ele, que desejara muito mais. Mas era preciso acabar; ela foi a primeira a dizer-lho.
— O senhor fez-me perder muito tempo. Há talvez uma hora que estamos aqui a conversar. Era natural, depois de dois anos. Dois anos! Mas o que não era natural, continuou ela mudando de tom, era atrever-me a falar com um estranho neste déshabillé tão pouco elegante...
— Elegantíssimo, pelo contrário.
— O senhor tem sempre um cumprimento de reserva: vejo que não perdeu o tempo na academia. Vou-me embora. São horas da baronesa dar o seu passeio pela chácara.
— Será aquela senhora que ali está no alto da escada? perguntou Estevão.
— É ela mesma, respondeu Guiomar. Está à espera que lhe vá dar o braço.
E com um gesto friamente fidalgo, estendeu a mão a Estevão dizendo:
— Passe bem, senhor doutor, estimei vê-lo.
Estevão tocou-lhe levemente na mão, fina e macia, e inclinou-se respeitoso. A moça caminhou para casa. Ele acompanhou-a com os olhos, admirando a gentileza com que ela, desta vez a passo acelerado, resvalava por entre as árvores até subir as escadas da casa. Viu-a dar o braço à madrinha, descerem e seguirem vagarosamente pelo mesmo caminho por onde Guiomar seguira da primeira vez.
Estevão ainda ficou algum tempo encostado à cerca, na esperança de que ela olhasse ou dirigisse os passos para aquele lado; ela porém, passou indiferente, como se nem da existência dele soubera. Estevão retirou-se dali cabisbaixo e triste, batido de contrários sentimentos, cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se combinavam, e por cima de tudo isso o eco vago e surdo desta interrogação:
— Entro num drama ou saio de uma comédia?





       






Machado de Assis 
Machado de Assis


Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

Machado de Assis

       


Recomendamos para você:


Memoirs - Migos

Fight Night - La traducción en español

Fight Night - Tradução em Português

No Heart - 21 Savage & Metro Boomin

Fight Night - Migos

John Wick - La traducción en español

John Wick - Tradução em Português

John Wick - Migos

Seize The Block - La traducción en español

Magnolia - Playboi Carti

Seize The Block - Tradução em Português

Seize The Block - Migos - The Fate of the Furious

Dab of Ranch - La traducción en español

Dab of Ranch - Tradução em Português

Dab of Ranch - Migos

Cocaina - Tradução em Português

Cocaina - Migos Featuring Young Thug

Cocoon - La traducción en español

Cocoon - Tradução em Português

Cocoon - Migos


Letras Música - Sanderlei Silveira

Migos - Song Lyrics

Letras Música - Tradução em Português


by Sanderlei Silveira -  http://sanderlei.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário